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domingo, 1 de novembro de 2009

a noite em Lisboa de Jon Hassell, o filósofo


Esperei alguns dias para escrever sobre o concerto de quarta-feira de Jon Hassell, acontecido no Teatro Maria Matos.
No fim Jon Hassell veio lamentar-se de uma performance em seu entender desapontante. Talvez também essa desconcertante atitude tenha relativizado o efeito do que se tocou nessa noite de Lisboa.
Como um dia um poeta popular bem perguntava, pode alguém ser quem não é?
A música mais recente de Jon Hassell deixou-se seduzir por uma dimensão onírica que em termos de precedentes consigo situar no chamado Jazz nórdico, que também em Lisboa já antes escutei a John Surman ou terje Rypdall. A música de agora (última década) de Jon destaca-se pelo quase paisagismo tão patente em "Last Night the Moon Came Dropping Its Clothes in the Street", o portentoso disco de 2009.
Nada de errado pois em fazer assentar uma performance ao vivo na produção mais recente com a Maarifa Street, hoje, por sinal, integrando dois músicos moruegueses.
Ainda antes da auto-crítica final do génio norte-americano já o público tinha provado o respeito pelo resultado daquela ida. Não entusiasmo, mas respeito. Não bateu palmas entre trechos, mas aplaudiu longamente no fim dos quase 80 minutos.
É que não se tratava de um concerto Pop. Jon Hassell nunca foi um músico Pop.
Quanto a nós, sentimos bem o efeito nocivo do demasiado Pop que enche a nossa melomania de hoje. É preciso escutar ainda melhor Jon Hassell e aqueles que como ele estão além da tentação popular. Vem daí a conclusão de ter sido este um dos meus concertos do ano. Foram 80 minutos de um utilíssimo alerta cultural.

sábado, 26 de setembro de 2009

Mulatu Astatke: o melhor concerto de há muito muito tempo



O recente e surpreendente anúncio da vinda do velho egípcio vibrafonista Mulatu Astatke (no âmbito do evento Africa.cont) já o fazia prever.
Hoje, no novo espaço para a fruição musical dos lisboetas designado de "Tercenas do Marquês", na rua das Janelas Verdes, Mulatu Astatke deveria poder fazer um grande concerto.
E fez.
Fez um concerto melhor até que aquele tão grande que o ano passado vi Tony Allen fazer no CCB.
Em palco com 8 músicos, Mulatu revelou melhor ainda que no já de si gigante disco de 2009 (Inspiration Information) o concentrado de "pós mágicos" de que se faz a sua música.
Ali se encontram e confundem a erudição que Mulatu cultivou na Europa, a latinidade de um certo estilo, patente até na fisionomia e na indumentária, ali se sentiu um sentido orquestral de raíz obviamente Jazz, de forte dançabilidade, ali vi e percebi a mística de um certo "groove" de matriz inequivocamente africana.

O melhor concerto deste ano, o melhor de há largos anos a esta parte, durou menos de hora e meia. Soube a muito pouco em face de tanta música.
No final, Mulatu disse várias vezes "we love you". Muita gente mais passou a amá-lo certamente também depois desta noite.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

a provada vitalidade dos Soapbox


Os Soapbox fazem uma música encantadora e mostraram esta noite, na Musicbox, que têm a força necessária para se afirmarem como um dos melhores projectos activos da cena portuguesa. Foi um concerto pleno de pujança, maduro, tecnicamente refinado, culturalmente absorvente.
Percebe-se um belíssimo trabalho de coesão, onde pontua uma excelente secção rítmica (a Sally e o Jota), uma guitarra versátil e dominadora (do Simão), teclados e sons virtuais manipulados com elevado sentido profissional pelo Coach e há a voz do Gonçalo, mais longe da inspiração Antony, por isso mais perto da sua própria banda, que conduz e em que se integra magnificamente.
Falta agora o registo em disco, com os cuidados que permitam consagrar o que não deve perder-se, a força deste excelente momento de musicalidade dos Soapbox.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Madness, "Forever Young"



E ontem, no Pavilhão Atlântico, os Madness poderiam ter dado um grande concerto. Mas falhou o som, falhou a sala, falhou o acerto técnico de quem organizou.
Não falhou o elenco de músicas, nem tão pouco a força interpretativa.
Mas foi bom, "malgré tout", ter a ocasião de enfim ver Suggs e companhia não muito longe da atitude de há 30 anos.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Aquaparque ao vivo e em cheio


Os Aquaparque fazem o melhor som de hoje em português, se esquecermos que os Dead Combo existem.
O seu álbum de canções "É Isso Aí" rasga futuro e o concerto desta 5ª fª, no Museu do Chiado, foi uma demonstração extraordinária de como inovar repescando no baú das boas coisas antigas.
E é claro que este som, como diziam o Belanciano e o ZEFM, vai à procura daquele outro magnífico dos Ocaso Épico de há mais de 20 anos, que uma bela noite escutei com mais uns 10 no velho teatrinho de "A Barraca", ali ao pé do Largo do Rato, em Lisboa.
Um belíssimo momento ao vivo, antecedendo um ruidoso Gavin Russom a solo, mas verdadeiramente a precisar de companhia.

sábado, 13 de dezembro de 2008

o fulgor discreto e inesquecível dos High Places




O concerto dos High Places, na madrugada de ontem, na ZDB, em Lisboa, revelou algo que é muito frequente ocorrer nos melhores projectos musicais: é a actuação ao vivo que mais lhes faz justiça e melhor no-los revela.
O disco deste ano, "High Places", o primeiro enquanto objecto conceptual do duo, depois de um conjunto de "maxis" (reunidos na notável compilação "03/07-09/07"), tinha deixado reservas a alguns. As ideias estavam lá, o som era bonito, sedutor, mas a realização soava a inacabado, e no fim das canções ficava uma sensação de alguma frustração.
Foi a respiração própria do palco, a largueza que só este permite às pulsações rítmicas, foi preciso percebermos a cor muito especial do estar "live" de Rob Barber e Mary Pearson, foi só assim que conseguimos sentir bem que os High Places não serão apenas um fenómeno derivado de outros, mas senhores criativos de um espaço difícil, mas possível e necessário.
Na madrugada de ontem assistimos pois a mais um belíssimo momento de música ao vivo, a impor decididas revisões nas escolhas do ano.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Guru Jazzmatazz, ontem no Casino de Lisboa


Para não desperdiçar palavras, Guru Jazzmatazz trouxe ontem a Lisboa um concerto desnecessário, onde o Jazz vitaminado das origens de "Jazzmatazz vol. 1" se viu derrotado por um hip-hop de terceira linha.
Como se o património original tivesse sido sujeito a um "take-over" hostil. Um caso perdido.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

noite muito quente no Hot Clube

Os Dead Combo levaram fogo muito vivo esta noite à pequena e velha cave da baixa de Lisboa, trazendo consigo Alexandre Frazão, um baterista brasileiro de raíz jazz e de infinitos recursos.
Foram mais de 2 horas de entrega, com dois "sets" (como lhes chamaram os próprios) bem distintos, o primeiro em registo sem bateria, bom mas previsível, estimulante q.b. O segundo "set", já com Alexandre, transportou as dezenas de atafulhados espectadores para uma outra dimensão, a do concerto-evento, com laivos de autêntico "rock'n'roll" (como quando da luminosa versão do "Temptation" de Tom Waits).
Até prova em contrário, quando tocam com Alexandre Frazão, os Dead Combo serão mesmo o único super-grupo português em actividade.
Um magnífico concerto.

sábado, 2 de agosto de 2008

Tony Allen e o concerto do ano


Tony Allen deu ontem, no CCB, o melhor concerto que já (ou)vimos em 2008.
A sala encheu e todos os músicos que acompanharam Tony estiveram em registo de excelência.
Ao vivo o Afrobeat afirma-se com uma extraordinária força e a rítmica única do ex-baterista do rei Fela Kuti incendeia qualquer espírito.
A dada altura perguntou ele à plateia quem tinha tido a ideia de convocar uma sala com lugares sentados para a sua música, lamentando o azar de quem o ouvia.
"Sou um homem de poucas palavras" disse várias vezes, um pouco antes de referir que por ele tocaria até de manhã, desde que tivesse tempo de ainda apanhar o avião.
E considerando a magia atingida pela sua música poucos duvidaram que Tony Allen pudesse e quisesse fazê-lo. Mas dois encores depois tudo acabou.
Foi uma grande noite.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

sábado, 31 de maio de 2008

tudo pelos Vampire Weekend



(...) Mas se os Young Marble Giants trouxeram de Cardiff toda a candura, num conceito - há 28 anos revolucionário - de máxima depuração do som, o momento de ouro da noite, o verdadeiro pastel de nata, acabaria por chegar com os Vampire Weekend. O resultado que com eles se pôde escutar na soberba sala 2 da Casa, em pouquíssimos 40 minutos, teve efeito talvez comparável aos momentos de revelação de uma nova fé, ou uma nova crença. Percebeu-se que em Nova Iorque acaba de nascer uma nova estrela da música popular, cheia da vibração própria das estrelas nascentes.
Em Portugal provavelmente não se presenciará tão cedo outro espectáculo assim.
Foi uma sensação de autêntico testemunho histórico e seguramente por muitos anos recordaremos esta madrugada em que pela primeira vez ouvimos a poucos metros de distância um som e uma atitude tão deslumbrantes.
Exibiram-se também na Casa as boas revelações recentes Lightspeed Champion e These New Puritans, mas face ao contexto até pareceram fraco condimento. E até foram bem bons os seus concertos.