escolha: o conceito multi-espaços na cidade do "Superbock em Stock".
Ano de crise, foi preciso esperar pelo seu quase fim para ver destacar-se algo de significativo. O "Superbock em Stock" trouxe à cena musical em Portugal um conceito não novo mas reconvertido, pegando na lógica das tendas especializadas dos espaços festivaleiros de Verão, ou ainda da mais remota "Festa do Avante", e adaptando-a à noite de uma cidade mortiça, como é Lisboa em tempo de Inverno. Dois teatros, um velho e outro recauchutado, um clube pequeno e duas salas que já foram cinemas, mostraram de que vidas se pode fazer a música bem dentro de onde se passeiam e estão as pessoas, com poucos meios, quase nenhuma cedência e muita inteligência.
Estive poucas vezes no Hot Club, ali na Praça da Alegria. A última vez faz já anos e nunca a esqueci, de tão emblemática. Levava comigo um amigo, o Bill, que anos antes, em Birmingham, me tinha proporcionado uma excelente noite no famoso Ronnie Scott's. Á entrada o Hot Club nada promete, sobretudo se comparado com a grandiloquência do Ronnie. Depois entra-se, desce-se uns bons metros, em escada estreitíssima, e o que aparece são uns exíguos metros quadrados onde cabem poucas dezenas, se devidamente encostados uns aos outros. Nos dias bons o Hot tem vinte, trinta pessoas. Tem um balcão de serviço de líquidos e snack mesmo à medida, poucas mesas e um ambiente próprio de quem está em casa. Ora nessa noite tocava uma banda tão informal quanto parece costume. Eu e o Bill tomávamos um copo e eis que se chega ao balcão o pianista, que depois de uns quarenta minutos de bom tocar intervalava para se refrescar. Seriam talvez umas duas da manhã. Feito o elogio pela entrega, perguntou o Bill se actuava ele regularmente no Hot e em que clubes mais se poderia encontrá-lo em performance. A resposta do pianista não deixou dúvidas: actuo aqui sempre que tenho cirurgias em Santa Maria. É o caso hoje. Tocar piano permite-me exercitar os dedos e a sua destreza. Por isso venho tocar. Entro no "banco" do hospital dentro de menos de uma hora. Naquele dia foi um médico. Consta que em outros dias, noutros tempos, no Hot Club podia ver-se por vezes a descer as escadas um qualquer músico norte-americano em trânsito para espectáculos na Europa. Terá isto acontecido muitas vezes, nos anos sessenta e setenta, com músicos de primeira água, que fariam escala apenas para uma boa "jam session". Acontece que senti saudades do Hot Club. Na quarta-feira vou matá-las, com os Dead Combo, o mais promissor projecto musical Pop em acção aqui no rectângulo.
Há mais um estimulante blogue para descobrir, o discodust. Dedica-se predominantemente à música electrónica e privilegia novos protagonistas. Está pejado de links de dj-mixs e canções inteiras (ouvir abaixo Rayflash, um nome novíssimo), que podem facilmente ser "descarregadas" para um PC que tenhamos à mão de semear. O discodust é mais um daqueles lugares que teremos doravante por referenciais aqui no Diversus.
Na descoberta que ontem o Diversus fez, a Casa da Música revela-se um espaço de fazer inveja a qualquer cidade do mundo, albergando bares, recantos e salas num todo de exemplar encanto. Pode-se numa só noite estar sucessivamente numa sala tipo Aula Magna, 3 minutos a subir e chega-se ao Lux, 2 minutos a descer e eis o Hot Clube. Mas se conhecer A Casa e o seu cunho de modernidade era o primeiro desiderato, o móbil mais directo ontem na incursão à grande cidade viva que é o Porto era mesmo experimentar 28 anos depois o idílio que os dedos dos manos Moxham e os pulmões de Mrs. Alison Statton seriam capazes de voltar a proporcionar, numa espécie de revisitação ao primeiro romance carnal. Secundariamente, ouvir-se-ia sons jovens, como quem condimenta com canela o pastel de nata.
O BEATPORT é uma daquelas grandes descobertas. Pode aí ouvir-se excertos de composições quase sempre acima de 1 minuto, às vezes de 2, e o elenco disponível é excepcional, sobretudo pela abertura às novas correntes musicais e às suas publicações multiformato (incluindo raras edições de 7 e 12'' em vinil). Tem a sua base de dados muitas falhas, mas também inúmeras surpresas. Vai direitinho este caminho para as "ligações" preferidas do Diversus.
O "Intervenções Sonoras" é um belíssimo Blog sobre as músicas e quase sempre fala daquelas mais estranhas, das mais recônditas, das mais tímidas, das mais surpreendentes, ou seja daquelas de que por aqui mais gostamos. E depois o IS traz-nos muitas novidades, de modo conciso, numa simplicidade bem conseguida. Enfim, o IS é todo ele um bem-vindo ar fresco.